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terça-feira, 28 de julho de 2009
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Estudos Culturais na UFRJ
George Yúdice é professor da University of Miami. Foi professor do Programa de estudos americanos e de literaturas e línguas espanhola e portuguesa na Universidade de Nova Iorque, e atuou como diretor do Centro de Estudos Latino-americanos e do Caribe. Autor de, dentre outros títulos, A conveniência da cultura: usos da cultura na era global - livro lançado pela UFMG em 2005 e que já vendeu 5 mil exemplares -, ele acha que "o intelectual hoje é uma pessoa que intervém". .
Acerca da vendagem deste livro, ele diz em entrevista para a ensaísta Heloísa Buarque de Hollanda: "Acho que esse sucesso é porque ele extrapola o universo acadêmico. Pessoas que estão mexendo em gestão cultural, multicultural estão comprando. Pessoas de estudos culturais compram, mas outras pessoas de arte, também".
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Na semana passada, Yudice participou - no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ - de uma mesa-redonda da qual fizeram parte o prof. uruguaio Abril Trigo e a Profa. carioca Beatriz Resende (UNIRIO/UFRJ). A mesa discutiu sobre os desdobramentos do Estudos Culturais Latino-Americanos. A seguir, transcrevo algumas das idéias do professor acerca da arte e da cultura contemporâneas, num tempo no qual os vínculos entre economia, sociedade e cultura parecem cada vez mais fortalecidos.

4 takes para os alunos que não assistiram ao evento:
1 - Yudice iniciou a sua comunicação ressaltando a importância dos professores e pesquisadores atentarmos para os jovens. Segundo ele, os jovens alunos devem ser inseridos "libidinosamente", já que, na sua opinião, "as mudanças culturais não estão realcionadas apenas com a cultura". Essas mudanças têm a ver com a escola e com as políticas educacionais, pois no atual contexto a cultura é lida como "prática material" (Abril Trigo).
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2 - Segundo Yudice, a maioria dos professores não conhecem (nem se interessam) pelas práticas culturais dos jovens contemporâneos: video-games, yotube, blogs, chats, MP-3, músicas no pc... Isso dificulta a interação entre mestres e alunos. Inseridos na atual "cultura do acesso", esses jovens sentem-se desinteressados com o modelo proposto pela escola .
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3 - Atentando para a importância dos suportes materias e dos produtos midiáticos na cultura, o ensaísta ressaltou "os lugares de socialização da internet". Falou das possibilidades de movimentos culturais e econômicos a partir dessas redes. Ressaltou pesquisas voltadas para a programação cultural na TV destacando, como exemplo, as relações inusitadas entre os desafios propostos pelos reality shows e a tragédia grega. O prof. citou Antígona, de Sófocles, como exemplo de um dos textos clássicos a partir dos quais é possível traçar relações entre a "experiência pessoal como encenação" e como produto comercial e o roteiro experimental dos personagens trágicos.
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4 - Yudice resgatou a leitura que Walter Benjamin faz do flaneur e do seu trânsito no espaço urbano no século XX para tecer relações com o atual contexto digital e midiático, onde novas tecnologias proporcionam o surgimento de outras sensibilidades. Segundo ele, a expressão dessas sensibilidades exigem outros modos de percepção, outros meios de interação, assim como as formas perceptivas que o pensador alemão conseguiu captar nas primerias décadas do século XX, através do cinema e da arquitetura.
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segunda-feira, 1 de junho de 2009
Sobre A Literatura em Perigo

COM RIGOR E COM AFETO
Tzvetan Todorov alerta sobre os males da instrumentalização da literatura
Marcos Pasche • Rio de Janeiro – RJ
A literatura em perigo
Tzvetan TodorovTrad.: Caio Meira
Difel
96 págs.
Para Raquel Bello e Paula Alemand
A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver [...]. A literatura tem um papel vital a cumprir; mas por isso é preciso tomá-la no sentido amplo e intenso que prevaleceu na Europa até fins do século XIX e que hoje é marginalizado, quando triunfa uma concepção absurda do literário. O leitor comum, que continua a procurar nas obras que lê aquilo que pode dar sentido à sua vida, tem razão contra professores, críticos e escritores que lhe dizem que a literatura só fala de si mesma ou que apenas pode ensinar o desespero. Se esse leitor não tivesse razão, a leitura estaria condenada a desaparecer num curto prazo.
A leitura do novo livro de Tzvetan Todorov, do qual foi extraído o vigoroso parágrafo, impulsiona-me à escrita de um artigo livre de certa frieza dos textos impessoais. É por isso que começo relatando uma experiência vivida (não somente por mim, tenho certeza) assim que me formei em Letras e cheguei a um colégio para lecionar literatura no ensino médio.
Embalado pela excelente prática de ensino realizada na UFRJ, sob a regência do brilhante professor André Dias (que bem mais do que nos "ensinar" a maneira correta de apagar o quadro e transmitir a nós meia-dúzia de tolos eufemismos travestidos de respeito ao aluno, apresentou-nos livros de psicologia social, geografia, antropologia, além, é claro, de grandes obras literárias) e cônscio de que não poderia subverter completamente a estrutura curricular do colégio - não feita só de negatividades -, queria quebrar a idéia ainda muito forte de que as artes são matéria para ricos, loucos ou vadios.
Foi então que me dirigi a uma turma do segundo ano, tentando perceber como nossa disciplina era vista, torcendo para que houvesse ao menos uma ligeira simpatia (sabendo, claro, que alguns a ignorariam ainda que ela lhes fosse apresentada da melhor maneira possível). De acordo com o programa, no primeiro ano devem ser lecionados aspectos de teoria literária (literariedade, gêneros, figuras e funções da linguagem), a literatura dos colonizadores do século 16, o Barroco e o Arcadismo, ocupando, cada tópico, um bimestre do ano letivo. Para adolescentes que em média têm quinze anos e muita energia, não é a coisa mais recomendável (mais por conta da linguagem erudita). Mas eu cria que os poemas satíricos de Gregório de Matos, com suas depravações subentendidas, ou mesmo os sonetos de Cláudio Manuel da Costa, repletos de sofisticada carga afetiva, tivessem feito vibrar neles a veia que sempre vibra em todos os que passam a se interessar por literatura, dizendo ser possível conceber o mundo de outra maneira, mais real e transfigurada a um só tempo.
Só que para a minha surpresa, isso não havia sido passado a eles. A própria professora do primeiro ano me informou que necessitou trabalhar com ênfase a teoria, alongando-se, segundo a própria, em versificação e classificação poética, a fim de que eles aprendessem a diferença entre as rimas internas e as encadeadas, entre o idílio e a écloga. Não houve como não pensar que vários leitores foram assassinados antes mesmo de nascerem, pois eles haviam visto uma abstração enfadonha até mesmo para professores.
Automaticamente somei o ocorrido ao estágio que havia feito num colégio público antes de me formar. Na ocasião (2006), não havia mais a disciplina literatura nas grades disciplinares dos colégios estaduais fluminenses de ensino médio (sim, ela fora varrida do mesmo modo que haviam sido filosofia e sociologia), e a professora da turma em que me instalei alternava as disciplinas por bimestre. Ou seja, no primeiro e no terceiro foram ministradas aulas de português; no segundo e no quarto, de literatura. E o secretário estadual de educação da época dessa aberração (governo de Rosângela Matheus) era Arnaldo Niskier, professor e membro da Academia Brasileira de Letras. Um grande mal estava feito, e empreendido por ditos homens de bem...
E é contra esse mal, o da mera instrumentalização das letras (fator de sua marginalização), que se edifica A literatura em perigo, do professor e crítico búlgaro-francês Tzvetan Todorov, livro denunciador dos problemas decorrentes do ensino de literatura, e restaurador do item que está na base das grandes obras estéticas e no cerne do pensamento dos seus espectadores: o amor pela arte.
Roupa suja que não se lava em casa
Num inteligente prólogo, o tradutor do livro e poeta Caio Meira relaciona a discussão do pensador francês ao ambiente universitário brasileiro. Se pensarmos que em sociedades da Grécia os poetas eram convocados para avalizar ou não a decisão de um governante, serão mais desoladoras as palavras de Caio:
Para Todorov, o perigo que hoje ronda a literatura é o oposto [em relação à opinião de Platão, para quem a poesia intervinha na formação do espírito]: o de não ter poder algum, o de não mais participar da formação do indivíduo, do cidadão.
Diante disso, é prática comum entre os que dela discordam a procura pelos culpados de sua disseminação. Fosse formulado um debate, os alvos seriam altamente previsíveis: a política educacional dos governos e a universidade, aqueles por negligenciarem os investimentos numa área essencial para o desenvolvimento e a soberania do País, a educação; esta por tecnicizar excessivamente a literatura, negando ou diminuindo a espontaneidade e a subjetividade de que tanto a produção quanto a análise artística sempre dependeram. "O caminho tomado atualmente pelo ensino literário (...) dificilmente poderá ter como conseqüência o amor pela literatura", diz o próprio Todorov.
Caio Meira esgarça a questão, e, ao falar dos estudantes dos cursos de Letras, faz-nos perceber uma mentalidade construída pelo mercado e absorvida, voluntária ou coercitivamente pelos que desejam uma formação meramente técnica, voltada para o mesmo mercado de trabalho. Diz o prefaciador:
Tomemos como exemplo os alunos dos cursos de Letras das universidades brasileiras: boa parte, com idades que variam em torno dos 20 anos, pouco ou quase nada leu de nossos romancistas ou poetas. Quase nenhum deles ouviu falar de Baudelaire, Edgar Allan Poe, Goethe, Fernando Pessoa, e raríssimos os leram. Esses alunos chegam à Faculdade de Letras em busca de especialização numa língua estrangeira ou de se tornarem professores de Português. Por outro lado, não lhes falta capacidade intelectual ou espírito crítico. O fato é que, até esse momento, com raras exceções, a literatura - pelo menos de maneira direta, isto é, mediante a leitura de romances, contos, poemas etc. - não participou da sua formação intelectual e afetiva, deixada, no que diz respeito à arte, bem mais a cargo do cinema e da música popular brasileira ou estrangeira (o que não quer dizer que não haja literatura na música ou no cinema...).
É de notar então que onde a literatura deveria ser celebrada e dignificada, ela também é submetida à marginalidade, virando mera peça decorativa, entretenimento esporádico ou veículo para estigmatizar como "porraloucas" ou "cdfs" os seus amantes. O próprio currículo disciplinar do curso de Português-Literaturas apresenta maior ênfase no ensino da língua. Evocando outra experiência, foi muito penoso para mim (e para tantos outros colegas) ter de estudar língua portuguesa - de forma geralmente rasa e insípida - por todos os oito períodos da graduação, sendo que decidi fazer Letras para estudar literatura. E foram apenas quatro os períodos para estudar as literaturas brasileira e portuguesa, e dois para estudar as africanas e literatura comparada (que é uma espécie de literatura geral do Ocidente).
Diante disso, não é difícil perceber que os literatos, já expulsos da república platônica, são também expulsos do lugar onde deveriam figurar como soberanos: as próprias faculdades de letras. Dificílimo então a busca de culpados, pois até mesmo muitos escritores têm feito de suas obras apenas exposições de conhecimento teórico, e a literatura preponderante entre nós (na prosa e na poesia), chamada vagamente de experimental, torna-se estéril na medida em que renuncia escavar os solos da existência.
Mais produtivo que assinalar culpados é conclamar os que podem mudar os fatos: os professores. Mas, pelo menos no Rio de Janeiro, eles têm como remuneração geral R$ 9,51 por hora de aula, e acabam não tendo tempo (ou estímulo) para a efetivação de novas práticas em sala de aula.
O humano no centro
O livro de Tzvetan Todorov é um manifesto contra os excessos críticos que retiram do fenômeno artístico (ou o diminuem) seu aspecto mais intenso, que é a capacidade de interferir na vida humana. Partindo da leitura do Boletim Oficial do Ministério da Educação (da França), do ano 2000, referente ao ensino da língua e da literatura daquele país, o autor fica indignado ao observar as diretrizes apresentadas no documento, todas voltadas para o conhecimento dos gêneros literários, a história literária, os tipos de discurso, etc.
O conjunto dessas instruções baseia-se, portanto, numa escolha: os estudos literários têm como objetivo primeiro o de nos fazer conhecer os instrumentos dos quais se servem. Ler poemas e romances não conduz à reflexão sobre a condição humana, sobre o indivíduo e a sociedade, o amor e o ódio, a alegria e o desespero, mas sobre as noções críticas, tradicionais ou modernas. Na escola, não aprendemos acerca do que falam as obras, mas sim do que falam os críticos.
O conjunto dessas instruções baseia-se, portanto, numa escolha: os estudos literários têm como objetivo primeiro o de nos fazer conhecer os instrumentos dos quais se servem. Ler poemas e romances não conduz à reflexão sobre a condição humana, sobre o indivíduo e a sociedade, o amor e o ódio, a alegria e o desespero, mas sobre as noções críticas, tradicionais ou modernas. Na escola, não aprendemos acerca do que falam as obras, mas sim do que falam os críticos.
Pode-se então pensar numa incoerência, pois Todorov é muito conhecido como um prócere do estruturalismo, tendência crítica que estudava a obra literária de maneira fechada, isolada em suas especificidades. No livro, o autor aponta que tal corrente, entre os anos de 1960 e 1970, foi a gênese desse mal, hoje sobressalente nos estudos universitários.
Mas ele mesmo se encarrega de explicar o impasse: as teorias têm por objetivo tornar o estudo da literatura mais abrangente e profissional, para fugir da mera apresentação de opiniões, sempre discutíveis pela subjetividade do gosto. É inegável, por exemplo, a contribuição que a sociologia, a psicologia e a história oferecem à crítica. O grande problema é a empresa, tão humana quanto a literatura, de validar uma verdade a partir do desmerecimento da outra. Ou seja, de acordo com certo pensamento, a crítica só poderia ser levada a sério caso não se restringisse ao mero impressionismo, devendo ser ele varrido dos estudos, o que é tão equivocado como acreditar na inutilidade das teorias.
No Brasil, essa discussão é muito forte nas universidades atualmente. Na Formação da literatura brasileira, Antonio Candido fala da peleja entre os esteticistas (contrários às teorias) e os historicistas (afeitos às mesmas). No caso, ele explica que durante muitos anos vigorou a idéia de que a literatura era um mero reflexo da história, servindo apenas para ilustrá-la. E no momento em que literatos reivindicaram a autonomia, a "solução" encontrada foi banir a história das pesquisas literárias. É o típico caso em que um exagero conduz ao outro, e ambos se afogam abraçados no poço das generalizações. A literatura passa a ter "donos", entre os quais se vêem menos escritores do que senhores feudais.
A literatura em perigo é um livro voltado decisivamente contra tais maniqueísmos, e toca em questões esquecidas pelos críticos, negligenciadas pelas teses, e diminuídas em congressos: as questões mais tocantes e envolventes que um texto literário pode nos apresentar, levando-nos à transcendência, sentindo ódio e paixão pela vida. "Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver", diz Todorov numa de suas páginas iniciais, nas quais nada há de auto-ajuda ou de pieguice romantizada.
O alerta do autor diz que a literatura está mecanizada, e ele grita para que os seus estudiosos não se esqueçam dos motivos pelos quais decidimos nos dedicar às artes, aqueles mesmos motivos que acendem nossas retinas diante de um texto tocante, os mesmos motivos que não raro nos fazem torcer o nariz para os cálculos, as fórmulas e as leis.
O AUTORTZVETAN TODOROV nasceu na Bulgária, em 1939, mas vive na França desde 1963, onde atua como professor e pesquisador de diferentes ciências humanas. Publicou A conquista da América - a questão do outro, As estruturas narrativas, entre outros.
TRECHO
O que o romance nos dá não é um novo saber, mas uma nova capacidade de comunicação com seres diferentes de nós; nesse sentido, eles participam mais da moral do que da ciência. O horizonte último dessa experiência não é a verdade, mas o amor, forma suprema da ligação humana.
Transcrito do Jornal Rascunho de Curitiba - PR
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Todorov
domingo, 31 de maio de 2009
Nas quebradas da voz
O lugar e a mãe na crônica poética do rap[1]
Numa Ciro
01 – Na escola pública não há um currículo escolar disponível para os alunos das periferias, como se pode encontrar nas escolas particulares. Nestas, os alunos com cinco anos de idade falam inglês e outras línguas, enquanto na favela o “caderno” do “pretinho” “é um fuzil, um fuzil”, como em “Negro Drama” (2002). Sobre esse problema, Mano Brown dá mais esta cartada, na entrevista à revista Rap Brasil.
A escola tem que renascer, essa que existe precisa morrer para nascer outra, outros padrões de comportamento, de ensino. Eu acho que hoje o professor deveria ser um educador, educar para viver, para economizar água, para não jogar comida fora, não dar R$ 800,00 num tênis da Nike, ensinar a viver, economizar dinheiro, lidar com dinheiro, respeitar a mãe, o pai. As pessoas já cansaram desse ensino básico, do dia do índio, Tiradentes, porque você não vê isso no dia-a-dia, não utiliza isso.
02 – Com base nessa crueldade, argumento que o rap encostou a literatura contra a parede que ela própria edificou: a diferença entre voz e letra, entre oral e escrito, foi tomada, pela literatura classicizante (Hollanda, 1976: 7-8), no sentido de desigualdade entre os valores. Sabemos que a oralidade foi banida da escrita até que, atualmente, um texto escrito é avaliado como perfeito quanto mais distante ele estiver da forma oral. Paul Zunthor (1993) orienta esse argumento ao dizer:
Quando nossa “literatura” se instaura, enfim, na época que chamamos de clássica, as diversas partes do discurso social serão dissociadas por causa de competências a partir daí descontínuas, política, moral, religiosa, ameaçando deixar uma lacuna que para a sociedade é vital preencher: a de um discurso homogêneo, apto a assumir o destino coletivo. A literatura vai desempenhar esse papel. Ela se tornará instituição. Vai exercer uma hegemonia, de fato, sobre as representações socioculturais que a Europa e depois a América formam de si próprias (Zunthor, 1993:284).
O que interessa verificar nesta tese são as conseqüências desse desempenho da literatura, como disse Zunthor, sofridas pelas populações que não tiveram acesso a esta instituição. Penso encontrar nas formações discursivas do rap as marcas dessa tradição e proponho que o rap abriu um canal para essas vozes que ficaram silenciadas pela obediência a esse monopólio de poder. A citação a seguir consta na orelha da capa da Antologia: Prosa e poesia periférica (2008).
Estudar pra quê? Se eu falo errado e escrevo pior ainda? Só tem um jeito de falar e um jeito de escrever! Isso é muito arriscado! Retraídos, com medo de riscar palavras, de arriscar ler nossas próprias palavras. Sem um espelho próprio que mostrasse como realmente somos, o espelho do outro nos refletiu imagens prontas. Histórias prontas. Iludidos, trocamos espelhos por histórias, e quando tentamos arriscar, já estava tudo definido. Devidamente escrito, não havia mais o que fazer. O certo e o errado, tudo no seu devido lugar. Arriscar era um erro, sem concordância, e sem acento.
03 – O movimento e /ou cultura hip hop tenta elaborar, através da linguagem artística, um discurso próprio, desligado do poder central e hegemônico das classes privilegiadas que possuem raízes em vários setores da organização social. O rap seria uma espécie de Teseu que adentra o labirinto da linguagem e luta de frente com a norma culta da língua, com o cânone literário, a crítica musical, o mercado fonográfico, etc.
Não podemos esquecer que o samba, nos primórdios de sua história também foi objeto de desconfiança e diferentes formas de menosprezo e perseguições. Em relação ao choro, que era aceito e tido como nobre, por exemplo, Cláudia Matos (1982) observou que: “Samba era coisa de preto e de pobre, e sem dúvida por isso mesmo estigmatizada”. A esse respeito, a autora cita uma fala de Pixinguinha que nos oferece o seguinte depoimento:
O choro tinha mais prestígio naquele tempo. O samba, você sabe, era mais cantado nos terreiros, pelas pessoas muito humildes. Se havia festa, o choro era tocado na sala de visitas e o samba, só no quintal, para os empregados (Matos,1982: 27).
04 – Para fazer o contracanto com o rap, ouviremos as vozes de alguns poetas e escritores das periferias, criadores de um movimento literário denominado Literatura Marginal... Sérgio Vaz, da Zona Sul de São Paulo, poeta e produtor cultural, criador do “Sarau da Cooperifa” e autor do projeto “Poesia contra violência”, diz que a literatura é uma dama triste que:
dentro do livro ou sob o cárcere do privilégio, ela se deita com Vitor Hugo, mas não com os Miseráveis. Beija a boca de Dante, mas não desce até o inferno. Faz sexo com Cervantes e ri da cara do Quixote. É triste, mas A Rosa do Povo não floresce no jardim plantado por Drummond (Encarte do CD do Sarau da Cooperifa).
05 – A psicanalista Maria Rita Kehl (1999) que esteve na banca dos entrevistadores de Mano Brown no programa Roda Viva (2007), escreveu um artigo que serve de orientação para pensarmos nessa relação do Racionais com as quebradas e com os manos:
O tratamento de "mano" não é gratuito. Indica uma intenção de igualdade, um sentimento de frátria, um campo de identificações horizontais, em contraposição ao modo de identificação/dominação vertical, da massa em relação ao líder ou ao ídolo. As letras são apelos dramáticos ao semelhante, ao irmão: junte-se a nós, aumente nossa força. Fique esperto, fique consciente — não faça o que eles esperam de você, não seja o "negro limitado" (título de uma das músicas de Brown) que o sistema quer, não justifique o preconceito dos "racistas otários" (título de outra música). A força dos grupos de rap não vem de sua capacidade de excluir, de colocar-se acima da massa e produzir fascínio, inveja. Vem de seu poder de inclusão, da insistência na igualdade entre artistas e público, todos negros, todos de origem pobre, todos vítimas da mesma discriminação e da mesma escassez de oportunidades.
06 – O que Bourdieu coloca atinge o nó da questão: “O principal mecanismo de dominação opera através da manipulação inconsciente do corpo” (1996:269). Antes ele tinha dito algo que explica como é que esse mecanismo de dominação opera. “Quanto mais se desce na escala social”, mais as pessoas “acreditam em talento se em dons naturais, mais acreditam que os que alcançam êxito são dotados de capacidades intelectuais inatas”.
07 – A escuta e a leitura do material poético e literário das narrativas produzidas nas periferias me fez enxergar algumas implicações dessa “violência simbólica”. A estranheza que a forma, o estilo e o conteúdo das letras dos rap, dos textos poéticos e literários produzidos pelas periferias despertam nos falantes da norma culta. A propósito, quero adiantar o que nos diz Marcos Bagno[2]:
O preconceito lingüístico está ligado, em boa medida, à confusão que foi criada, no curso da história, entre língua e gramática normativa. Nossa tarefa mais urgente é desfazer essa confusão. Uma receita de bolo não é o bolo, o molde de um vestido não é o vestido, um mapa-múndi não é o mundo... Também a gramática normativa não é a língua.
08 – Observei que esse giro do olhar foi em resposta a essa voz que chamo de voz política do rap. Política porque trouxe consigo novas formas de poder. Poder falar, poder escrever. O que vemos é que esses artistas estão reivindicando o seu direito de expressão. As dificuldades são muitas e uma delas é apontada por Marcos Bagno[3]:
Como a educação ainda é privilégio de muito pouca gente em nosso país, uma quantidade gigantesca de brasileiros permanece à margem do domínio de uma norma culta. Assim, da mesma forma como existem milhões de brasileiros sem terra, sem escola, sem teto, sem trabalho, sem saúde, também existem milhões de brasileiros sem língua. Afinal, se formos acreditar no mito da língua única, existem milhões de pessoas neste país que não têm acesso a essa língua, que é a norma literária, culta, empregada pelos escritores e jornalistas, pelas instituições oficiais, pelos órgãos do poder – são os sem-língua[4].
09 – Esse processo histórico do qual resulta a distribuição desigual das terras e do conjunto dos bens materiais e simbólicos no Brasil, corresponde aos processos de construção da nação brasileira desde a expansão marítima dos reinos da Espanha e de Portugal, e a conseqüente colonização, de toda a América Latina, por ambos empreendida. Ninguém desconhece como se deu, nesse processo, o genocídio de mais de 5 milhões de índios, só no Brasil.
10 – Porém o que está ocorrendo no Brasil desde a passagem dos anos 70 para os anos 80, é o crescimento do nível de violência que já pode ser interpretada como uma barbárie de grandes proporções. Já vimos muitos gráficos das estatísticas sobre essa violência, e aprendemos com os especialistas em criminalidade e em políticas públicas a ler esses resultados. Mas prefiro que olhemos para esses dados através do corpus.[5] Esta chamada dos manos e minas no início da música, ao mesmo tempo é informativa, serve de alerta. Primeiro chamo atenção para estes versos, quando o rap manda olhar: “veja você quem morre/ veja você quem mata”. Depois, a resposta:
60% dos jovens de periferia
sem antecedentes criminais
já sofreram violência policial.
A cada quatro pessoas mortas pela polícia
três são negras.
Nas universidades brasileiras
apenas 2% dos alunos são negros
A cada 4 horas
um jovem negro morre violentamente
em São Paulo
aqui quem fala é primo preto
mais um sobrevivente
[1] Tese de Doutorado defendida por Numa Ciro, em Março de 2009 na UFRJ, com orientação de Heloísa Buarque de Hollanda. Seleção de trechos: Nonato Gurgel.
[2] Bagno, 1999.
[3] Idem, p: 16.
[4] Grifo do autor.
[5]Rap “Capitulo 4 Versículo 3”.
Numa Ciro
01 – Na escola pública não há um currículo escolar disponível para os alunos das periferias, como se pode encontrar nas escolas particulares. Nestas, os alunos com cinco anos de idade falam inglês e outras línguas, enquanto na favela o “caderno” do “pretinho” “é um fuzil, um fuzil”, como em “Negro Drama” (2002). Sobre esse problema, Mano Brown dá mais esta cartada, na entrevista à revista Rap Brasil.
A escola tem que renascer, essa que existe precisa morrer para nascer outra, outros padrões de comportamento, de ensino. Eu acho que hoje o professor deveria ser um educador, educar para viver, para economizar água, para não jogar comida fora, não dar R$ 800,00 num tênis da Nike, ensinar a viver, economizar dinheiro, lidar com dinheiro, respeitar a mãe, o pai. As pessoas já cansaram desse ensino básico, do dia do índio, Tiradentes, porque você não vê isso no dia-a-dia, não utiliza isso.
02 – Com base nessa crueldade, argumento que o rap encostou a literatura contra a parede que ela própria edificou: a diferença entre voz e letra, entre oral e escrito, foi tomada, pela literatura classicizante (Hollanda, 1976: 7-8), no sentido de desigualdade entre os valores. Sabemos que a oralidade foi banida da escrita até que, atualmente, um texto escrito é avaliado como perfeito quanto mais distante ele estiver da forma oral. Paul Zunthor (1993) orienta esse argumento ao dizer:
Quando nossa “literatura” se instaura, enfim, na época que chamamos de clássica, as diversas partes do discurso social serão dissociadas por causa de competências a partir daí descontínuas, política, moral, religiosa, ameaçando deixar uma lacuna que para a sociedade é vital preencher: a de um discurso homogêneo, apto a assumir o destino coletivo. A literatura vai desempenhar esse papel. Ela se tornará instituição. Vai exercer uma hegemonia, de fato, sobre as representações socioculturais que a Europa e depois a América formam de si próprias (Zunthor, 1993:284).
O que interessa verificar nesta tese são as conseqüências desse desempenho da literatura, como disse Zunthor, sofridas pelas populações que não tiveram acesso a esta instituição. Penso encontrar nas formações discursivas do rap as marcas dessa tradição e proponho que o rap abriu um canal para essas vozes que ficaram silenciadas pela obediência a esse monopólio de poder. A citação a seguir consta na orelha da capa da Antologia: Prosa e poesia periférica (2008).
Estudar pra quê? Se eu falo errado e escrevo pior ainda? Só tem um jeito de falar e um jeito de escrever! Isso é muito arriscado! Retraídos, com medo de riscar palavras, de arriscar ler nossas próprias palavras. Sem um espelho próprio que mostrasse como realmente somos, o espelho do outro nos refletiu imagens prontas. Histórias prontas. Iludidos, trocamos espelhos por histórias, e quando tentamos arriscar, já estava tudo definido. Devidamente escrito, não havia mais o que fazer. O certo e o errado, tudo no seu devido lugar. Arriscar era um erro, sem concordância, e sem acento.
03 – O movimento e /ou cultura hip hop tenta elaborar, através da linguagem artística, um discurso próprio, desligado do poder central e hegemônico das classes privilegiadas que possuem raízes em vários setores da organização social. O rap seria uma espécie de Teseu que adentra o labirinto da linguagem e luta de frente com a norma culta da língua, com o cânone literário, a crítica musical, o mercado fonográfico, etc.
Não podemos esquecer que o samba, nos primórdios de sua história também foi objeto de desconfiança e diferentes formas de menosprezo e perseguições. Em relação ao choro, que era aceito e tido como nobre, por exemplo, Cláudia Matos (1982) observou que: “Samba era coisa de preto e de pobre, e sem dúvida por isso mesmo estigmatizada”. A esse respeito, a autora cita uma fala de Pixinguinha que nos oferece o seguinte depoimento:
O choro tinha mais prestígio naquele tempo. O samba, você sabe, era mais cantado nos terreiros, pelas pessoas muito humildes. Se havia festa, o choro era tocado na sala de visitas e o samba, só no quintal, para os empregados (Matos,1982: 27).
04 – Para fazer o contracanto com o rap, ouviremos as vozes de alguns poetas e escritores das periferias, criadores de um movimento literário denominado Literatura Marginal... Sérgio Vaz, da Zona Sul de São Paulo, poeta e produtor cultural, criador do “Sarau da Cooperifa” e autor do projeto “Poesia contra violência”, diz que a literatura é uma dama triste que:
dentro do livro ou sob o cárcere do privilégio, ela se deita com Vitor Hugo, mas não com os Miseráveis. Beija a boca de Dante, mas não desce até o inferno. Faz sexo com Cervantes e ri da cara do Quixote. É triste, mas A Rosa do Povo não floresce no jardim plantado por Drummond (Encarte do CD do Sarau da Cooperifa).
05 – A psicanalista Maria Rita Kehl (1999) que esteve na banca dos entrevistadores de Mano Brown no programa Roda Viva (2007), escreveu um artigo que serve de orientação para pensarmos nessa relação do Racionais com as quebradas e com os manos:
O tratamento de "mano" não é gratuito. Indica uma intenção de igualdade, um sentimento de frátria, um campo de identificações horizontais, em contraposição ao modo de identificação/dominação vertical, da massa em relação ao líder ou ao ídolo. As letras são apelos dramáticos ao semelhante, ao irmão: junte-se a nós, aumente nossa força. Fique esperto, fique consciente — não faça o que eles esperam de você, não seja o "negro limitado" (título de uma das músicas de Brown) que o sistema quer, não justifique o preconceito dos "racistas otários" (título de outra música). A força dos grupos de rap não vem de sua capacidade de excluir, de colocar-se acima da massa e produzir fascínio, inveja. Vem de seu poder de inclusão, da insistência na igualdade entre artistas e público, todos negros, todos de origem pobre, todos vítimas da mesma discriminação e da mesma escassez de oportunidades.
06 – O que Bourdieu coloca atinge o nó da questão: “O principal mecanismo de dominação opera através da manipulação inconsciente do corpo” (1996:269). Antes ele tinha dito algo que explica como é que esse mecanismo de dominação opera. “Quanto mais se desce na escala social”, mais as pessoas “acreditam em talento se em dons naturais, mais acreditam que os que alcançam êxito são dotados de capacidades intelectuais inatas”.
07 – A escuta e a leitura do material poético e literário das narrativas produzidas nas periferias me fez enxergar algumas implicações dessa “violência simbólica”. A estranheza que a forma, o estilo e o conteúdo das letras dos rap, dos textos poéticos e literários produzidos pelas periferias despertam nos falantes da norma culta. A propósito, quero adiantar o que nos diz Marcos Bagno[2]:
O preconceito lingüístico está ligado, em boa medida, à confusão que foi criada, no curso da história, entre língua e gramática normativa. Nossa tarefa mais urgente é desfazer essa confusão. Uma receita de bolo não é o bolo, o molde de um vestido não é o vestido, um mapa-múndi não é o mundo... Também a gramática normativa não é a língua.
08 – Observei que esse giro do olhar foi em resposta a essa voz que chamo de voz política do rap. Política porque trouxe consigo novas formas de poder. Poder falar, poder escrever. O que vemos é que esses artistas estão reivindicando o seu direito de expressão. As dificuldades são muitas e uma delas é apontada por Marcos Bagno[3]:
Como a educação ainda é privilégio de muito pouca gente em nosso país, uma quantidade gigantesca de brasileiros permanece à margem do domínio de uma norma culta. Assim, da mesma forma como existem milhões de brasileiros sem terra, sem escola, sem teto, sem trabalho, sem saúde, também existem milhões de brasileiros sem língua. Afinal, se formos acreditar no mito da língua única, existem milhões de pessoas neste país que não têm acesso a essa língua, que é a norma literária, culta, empregada pelos escritores e jornalistas, pelas instituições oficiais, pelos órgãos do poder – são os sem-língua[4].
09 – Esse processo histórico do qual resulta a distribuição desigual das terras e do conjunto dos bens materiais e simbólicos no Brasil, corresponde aos processos de construção da nação brasileira desde a expansão marítima dos reinos da Espanha e de Portugal, e a conseqüente colonização, de toda a América Latina, por ambos empreendida. Ninguém desconhece como se deu, nesse processo, o genocídio de mais de 5 milhões de índios, só no Brasil.
10 – Porém o que está ocorrendo no Brasil desde a passagem dos anos 70 para os anos 80, é o crescimento do nível de violência que já pode ser interpretada como uma barbárie de grandes proporções. Já vimos muitos gráficos das estatísticas sobre essa violência, e aprendemos com os especialistas em criminalidade e em políticas públicas a ler esses resultados. Mas prefiro que olhemos para esses dados através do corpus.[5] Esta chamada dos manos e minas no início da música, ao mesmo tempo é informativa, serve de alerta. Primeiro chamo atenção para estes versos, quando o rap manda olhar: “veja você quem morre/ veja você quem mata”. Depois, a resposta:
60% dos jovens de periferia
sem antecedentes criminais
já sofreram violência policial.
A cada quatro pessoas mortas pela polícia
três são negras.
Nas universidades brasileiras
apenas 2% dos alunos são negros
A cada 4 horas
um jovem negro morre violentamente
em São Paulo
aqui quem fala é primo preto
mais um sobrevivente
[1] Tese de Doutorado defendida por Numa Ciro, em Março de 2009 na UFRJ, com orientação de Heloísa Buarque de Hollanda. Seleção de trechos: Nonato Gurgel.
[2] Bagno, 1999.
[3] Idem, p: 16.
[4] Grifo do autor.
[5]Rap “Capitulo 4 Versículo 3”.
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